Zé, o Aviador

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Eu tenho quase certeza de que todo este processo de reciclagem no mundo nasceu primeiro na terra de José Inácio e o propulsor de tudo isso chamava-se Zé Ferreira.

Zé Ferreira catava de um tudo, e tudo pra ele tinha a sua serventia.

Se naquela época existisse Vigilância Sanitária, tenho plena convicção de que as maiores reclamações seriam da garagem de Zé Ferreira, devido ao acúmulo de tanta coisa que ele catava nas ruas.

O que pra muitos era lixo, pra outros, era material de trabalho. Só que pra ele tinha uma finalidade maior, a realização do seu sonho: construir um avião. Talvez surgisse daí a necessidade de catar tanto ferro velho. Zé era um profissional de mão cheia e qualquer trabalho que se metia a fazer, fazia e saía perfeitamente bem. Ele era um dos homens mais inteligentes da sua época e fazia por merecer devido a sua entrega ao trabalho. Quem passava pela Rua da Lancha – Rua Teixeira de Freitas, nome oficial -, não tinha como não perceber aquela garagem, com aquele portão imenso de madeira e que só abria uma parte. No interior da garagem havia um monte de coisas velhas e um senhor com as sandálias bem menores que os pés, uma calça preta e uma camisa da mesma cor, que às vezes nos confundia. Seriam pretas mesmo ou era o óleo de suas máquinas ou de suas bugigangas encontradas nas ruas?

Existe até uma lenda envolvendo Zé Ferreira que muitos contam. É que ele só tomava banho de quatro em quatro anos e quando era dia de eleição. Lembro-me de um certo dia quando o encontrei, ele estava de barba feita, roupa impecavelmente limpa, de linho puro e nas mãos um título eleitoral, que nos dias de hoje parece mais um cartão de vacina. Era dia de eleição municipal, e na disputa, Pedrinho e Machadão. Em quem ele votou? Só ele e Deus sabem. Quem da minha época não se lembra de Zé Ferreira com o seu carrinho de mão pelas ruas da cidade, catando uma coisa aqui, outra ali e levando diretamente para o seu mundo, seu espaço e seu trabalho? Assim era Zé Ferreira, homem simples e ao mesmo tempo misterioso e inteligente.
Ele era uma pessoa muita reservada, pouco falava e vivia inteiramente para os seus afazeres.

A sua garagem era o seu mundo. Seus achados, na sua concepção, valiam mais do que ouro e ele se sentia feliz na vida que levava. Em momento algum que eu tenha lembranças, soube de qualquer reclamação sua. A última lembrança que tenho do grande sonhador Zé Ferreira, é de um homem sentado ao lado da sua garagem vendo a vida dos moradores da terra de José Inácio passando lentamente e olhando um futuro que nascia na esperança de um dia voar além do que se podia imaginar. Voe Zé! A liberdade é a sua honra. No seu avião imaginário, todos nós nos sentiremos inteiramente livres e confiantes, seja qual for o seu destino.

Por Joselito Fróes, Colunista do Itiruçu Online.


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