Opinião: dois pesos e duas medidas na crucificação sobre currículo de Decotteli

Vi essa imagem em uma rede social e posto ela não para defender o errado, mas em uma tentativa de provocar reflexão.

Na semana passada quando vi a divulgação do nome de Decotteli para o ministério da educação e o seu currículo, eu fiquei impressionada e feliz por vê um homem negro com Lattes tão incrível. Quando ele disse que era técnico e nada ideológico, pensei: graças a Deus. Agora vai.

No dia seguinte, o primeiro desmentido: não tinha doutorado por uma determinada universidade. No outro, denúncia de plágio na dissertação do mestrado e, na sequência, não existe o pós-doutorado.

O que no início poderia ser considerado um “erro”, um relapso de memória, é pressão não esquecer de referenciar um texto, no decorrer do percurso foi se tornando mais grave do que uma nomeação para um cargo público.

Aí, outro fator para tanta exposição, não atoa, me chamou a atenção. E foi inevitável pensar: se ele fosse branco, isso não estaria acontecendo. E o meu crivo afiado em apontar o erro do outro, me fez questionar inúmeras vezes por que ele fez isso?

Carla Akotirene, intelectual baiana, em uma rede social logo quando saiu a questão do doutorado e plágio, disse: “A academia é, sim, essa caravela moderna de desautorização intelectual de pessoas negras, embora possamos crer em alianças conservadoras”.

Na altura do campeonato a vida acadêmica daquele homem negro já estava sendo revirada de ponta cabeça. E todo aquele peso acadêmico se derreteu nas manchetes dos jornais.

No governo que não se preocupa com o Lattes dos seus membros e voltando pra a imagem, temos 4 pessoas que mentiram nas informações prestadas na plataforma Lattes. Nessa imagem com 2 homens e duas mulheres, temos a questão de gênero e raça. Na hora de crucificar o erro (cometido por brancos ou negros, errado é sempre errado), adivinhem quem virou motivo de chacota, de piadas intermináveis e do eterno questionamento duvidoso da sua capacidade intelectual?

Muito errado o que Decotteli fez e, não sejamos hipócritas, currículos como o dele, não falta por aí. Informações falsas que colocam em dúvida também as informações prestadas na plataforma Lattes, que são pessoais e de responsabilidade de quem as publica.

Não aconteceu nada com Damares, nada com Eduardo Salles, mas com Joana e Decotteli o apagamento é visível e notório. O que poderíamos chamar de dois pesos e duas medidas. Quando o correto seria todos serem punidos igualmente por seus atos.

Mas, como também disse Carla Akotirene: “A academia tem como repertório o desaplauso, a nossa chacota, a interiorização espiritual e o constrangimento individual – coletivo”, como já aconteceu com Luther King, Fanon, Lélia Gonzalez e tantos outros e outras.

A luta é grande e no primeiro erro de um dos nossos, a chacota vem na mesma proporção. É muito triste. Sigamos lutando e conquistando espaços.

Por Jussiara Oliveira – Jequié, m  30/06/2020.


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