Manifestações? Porque não discutir a partir das conjunturas locais?

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Cá estamos nós após as manifestações de sexta-feira e domingo. O que mudou, o que mudará? Sinceramente, por conta das manifestações nada. Nada? Sim, nada, a não ser algumas amizades desfeitas no facebook e na vida real, fora isso, nada mesmo.

As manifestações de sexta-feira (13/03), pelo menos foram mais objetivas e transparentes do que as de domingo. Sexta os manifestantes, convocados pela Central Única dos Trabalhadores e mais alguns sindicatos reivindicavam mudanças de rumos da política, mas sem golpe à Democracia. Na pauta “reforma política”, “taxação das grandes fortunas”, “defesa da Petrobrás”, “punições mais severas aos corruptos” e “defesa de direitos trabalhistas”. As manifestações podem ser compreendidas como pró-governo Dilma? Sem dúvidas que sim, foram as forças sociais que elegeram Dilma que se manifestaram, mas não numa defesa cega, e sim no sentido de dar mais um voto de confiança para que o governo enfrente de vez os desafios que estão postos.

Nas manifestações de domingo (15/03) por mais que alguns tentem me convencer de que foi o povo nas ruas, quem acompanhou os atos pela mídia alternativa constatou claramente que não foi um ato puritano em defesa do Brasil. O primeiro ponto é que seus organizadores são ocultos, diferentemente das manifestações de sexta-feira 13. A própria grande mídia que deu 100% de cobertura aos atos (o mesmo não ocorreu quanto a sexta-feira) usava o termo “segundo os organizadores”. Alguém viu algum organizador sendo entrevistado ou tendo seu nome citado? Nem aproximavam as imagens dos carros de som para vermos quem estava em cima. Já que a grande mídia não menciona os nomes dos organizadores, na mídia alternativa correm especulações investigativas de que um dos grupos organizadores do movimento do dia 15, “Estudantes pela Liberdade” (EPL), é financiado por corporação petroleira norte-americana que ataca direitos indígenas, depreda ambiente e tem interesse óbvio em atingir a Petrobras. No site da revista Carta Capital encontramos uma matéria completa sobre essa questão, uma vez que a Veja, Folha de São Paulo e O Globo não nos permite um contraponto, uma vez que não publicam nada a respeito.

O que vimos nas manifestações do domingo foram claramente atos contra o governo que foram de “Fora Dilma”, “Impeachment” a “Intervenção Militar”, hostilização à todos que estivessem vestindo camisa vermelha, inclusive com vários casos de agressões. A própria grande mídia dizia “manifestações contra a corrupção, contra o governo Dilma”. Óbvio que no meio das multidões tinham pessoas pedindo “reforma política”, se posicionando “contra corrupção”, etc. Tinha gente pedindo prisão para o “Karl Marx de Garanhus” e “Basta de Paulo Freire”. As entrevistas com participantes dos atos que circulam nas redes sociais através da mídia alternativa demonstraram discursos de ódio, desconhecimento, preconceito e até ingenuidade, pois tinham pessoas que nem sabiam o que queriam. Incoerências como o pedido de intervenção militar sob o som de “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, o hino contra a ditadura militar.

No entanto, deixando as incoerências, o que muda depois das manifestações do dia 13 e do dia 15? Pelo menos por enquanto nada. O governo mostrou que tem apoio e a oposição mostrou que também tem força. Contudo, ninguém teve a coragem de assumir efetivamente o compromisso com uma mudança real, com uma reforma política de verdade, por mais que panfletem e façam discursos inflamados sobre essa questão. Enquanto o país não tiver a coragem de enfrentar uma luta de verdade pela reforma política, não haverá mudanças, e sejamos sinceros, muitos que estão a frente destes movimentos não estão preocupados com isso.

Querem ver uma prova disso? Todas as pessoas conscientes sabem que é preciso uma reforma política que discuta seriamente o financiamento de campanhas. Alguns defendem o fim do financiamento privado, outros defendem o financiamento público, fim das coligações proporcionais, entre outras questões. O problema é que muitos inflamados discutem essa questão como se os problemas do nosso sistema político só acontecessem em Brasília. Não consigo ver a mesma indignação quanto ao contexto local, ou contextos locais. Quem financia as campanhas a nível local? A dinâmica é diferente do que ocorre em Brasília? Quem ganha as licitações, pregões nos governos locais? Quem são as empresas que prestam serviços aos governos locais? Ninguém discute isso, porque será?

Antes de pedir mudança lá, tenhamos a coragem de mudar aqui, ou que a mudança que esbravejamos para que aconteça lá, seja uma mudança que mude aqui também, que seja por uma reforma que transforme a estrutura do sistema político, acabando de vez com essas mazelas, que comecemos mudando a nós mesmos. Mas, enquanto isso acho que muitos preferem ficar discutindo o lá a pensar o lá a partir de cá, e mais ainda, em transformar o lá para mudar o cá. Precisamos ser mais honestos em nossas posturas. Como nos diz Paulo Freire, “uma coisa fica clara, é preciso diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, até que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”.

Renê Silva, Pedagogo, Mestrando em Educação (UESB).

Colunista do Blog Itiruçu Online


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