Crônica: O JURAMENTO – Por Tom Scaldaferri.

O JURAMENTO – Por Tom Scaldaferri. 

Num tempo em que uma sandália emborcada ou leite com manga eram coisas mais perigosas que buchada azeda, crendices e superstições campeavam soltas na minha Itiruçu dos anos 1960.

Num frio de doer os ossos, eu com meus cinco ou seis anos vestia grossas roupas de lã, pra se tentar evitar que minha garganta inflamasse e a falta de ar me sufocasse. Era um par de meias, calça, blusão e até um gorro com laterais que cobriam até as orelhas, TUDO DE LÃ. Eu ficava parecendo um piloto da primeira guerra.

Numa daquelas crises, JUREI que nunca mais tomaria um tal remédio para febre que tinha um gosto horrível. Então, a empregada Duzanjo muito preocupada, me levou até minha avó Izaltina pra que ela usasse algum artifício pra me convencer a quebrar o tal juramento e tomasse o remédio.

– Mas menino, toma logo antes que tu adoeça.
Pediu minha avó.

– Vovó Tina, eu jurei! Se eu quebrar o juramento é morte certa!
Respondi.

– “ÔXE”, e quem inventou isso?

– Zé de Toninho, meu colega de escola. Ele já fez catecismo.

– Tu pode morrer é se não tomar, sabia?
Disse ela na primeira tentativa.

– Vou arriscar!

– Olha, tu piorando vai ter que tomar benzetacil!
…Segunda tentativa.

– Melhor que morrer por ter quebrado o juramento!

Minha avó que era a mulher mais diplomática do mundo com crianças, pensou, pensou, olhou pra empregada e me disse:

– E Zé não te disse como é que se faz pra quebrar um juramento sem morrer, não?
Terceira tentativa.

– Não! E tem?

– Tem sim senhor: Segura esse copo aqui com a mão esquerda, cospe dentro três vezes, fecha os olhos bem fechados e bebe tudo bem ligeiro. Te garanto que tu não morre mais!

– E tu jura?

– “ÔXE”! Tu nunca mais me venha com essa prosa de juramento não, tá?

– Tá!
Acabei virando o copo e bebi o antitérmico todinho.

Mais tarde voltando do quintal, eu estava limpando a lama grudada no solado do meu Conga, e sem querer ouvi uma conversa entre elas:

– Mas Dona “Zartina”, a senhora fez o menino beber o remédio com cuspe!

– “BESTAGE”! Ele não já engole o cuspe dele o dia todo mesmo?

Alguns anos mais tarde, fiz uns testes na moderna clínica IDAB em Salvador e descobrimos que eu tinha ALERGIA A LÃ.


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