Brasil, uma Distopia Democrática

No plano biológico, entende-se por distopia a localização anômala de um órgão. Já em termos filosóficos, distopia significa “uma sociedade imaginária controlada pelo Estado ou por outros meios extremos de opressão, criando condições de vida insuportáveis aos indivíduos. “ E é esse segundo conceito que devemos levar em conta nesta análise.

Alguns traços característicos da sociedade distópica são: “poder político totalitário, mantido por uma minoria; privação extrema e desespero de um povo que tende a se tornar corruptível.”

Normalmente são características atribuídas a ditaduras cujo poder inquestionável e concentrado gera situações como essa. Se pudéssemos observar ao nosso lado, teríamos o exemplo da Venezuela como uma nação que apresenta características de uma distopia bolivariana que seria cômica se não fosse trágica.

Mas o Brasil, como sempre, inovou mais uma vez e conseguiu criar uma inédita “distopia democrática”, uma sociedade livre que através do voto universal vai gerando as condições opressivas do tributo e da falta de segurança como vetores que incentivam a corrupção e um estado de espírito de salve-se quem puder.

Essa verdadeira cleptocracia em que nos transformamos tem gerado em nosso povo inúmeras distorções de caráter que se traduzem por leniência moral, aceitação do inaceitável como condição rotineira, votação por interesse próprio aspirando benesses individuais e convivência bovina com as minorias ruidosas que estão sempre em busca de vantagens inconfessáveis.

Por tudo isso, estamos perdendo talentos e investimentos. Universidades públicas tiram dinheiro dos pobres para formar os ricos que depois se evadem, não da escola, mas do país. Estamos assistindo a uma diáspora silenciosa de nossa gente mais escolarizada, em busca de um futuro que aqui parece não existir.

Se analisarmos com atenção esse fenômeno, não há grandes diferenças entre os venezuelanos que se aglomeram nas praças de Boa Vista em Roraima e os brasileiros que se reúnem no Brickell City Centre de Miami. É só uma questão de nível sociocultural em que estamos trocando ricos que falam português e vão embora por pobres que falam espanhol e estão chegando.

Essa aparente apatia dos que deveriam se insurgir é a causa principal da distopia. Empresários que ainda acreditam no seu papel apenas como gerador de empregos e pagador de impostos, estudantes que fingem estudar sob a tutela de professores que fingem ensinar, entidades que focam seus interesses em detalhes comezinhos perdendo a visão estratégica do todo e uma liderança política dividida em três poderes que estão neste momento disputando quem pode mais.

Isso tudo é razão para desânimo? A resposta é não. Existem sinais evidentes de fadiga de material, surgem lideranças que parecem querer alterar o rumo das coisas, cidadãos comuns estão tomando consciência que do jeito que está não pode ficar, mas ainda se assiste a vitórias absurdas de grupos de pressão, benevolência com o privilégio e manutenção do que precisaria ser mudado.

Estamos numa balança que ora pende para um lado e ora para o outro. É nesse momento de equilíbrio instável onde o peso de cada um de nós pode fazer a grande diferença no resultado. Não podemos aceitar a distopia e nem almejar a utopia. Precisamos, sim, ter uma noção clara que só com o trabalho árduo, retidão moral e consciência cívica será possível alterar esse estado de coisas.

Por Walter Longo: sócio-diretor da Unimark-Comunicação.


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